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Conserto de cadeiras!

maio 3, 2009

cadeiras

O tutorial que segue foi elaborado pelos aprendizes de MetaReciclagem da unidade Casa Brasil Meniná Meninó em fortaleza, com o objetivo de ajudar no reaproveitamento de cadeiras quebradas nas unidades.

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Petição cineclubismo!

maio 2, 2009

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CARTA ABERTA DO MOVIMENTO CINECLUBISTA CEARENSE

AO GOVERNO DO ESTADO E AO FÓRUM DO AUDIOVISUAL CEARENSE

Fortaleza, 29 de abril de 2009.

Prezados senhores,

Saudamos aos participantes do Fórum do Audiovisual Cearense, ao mesmo tempo em que lançamos essa carta aberta com intuito de somar, de compartilhar e sugerirmos idéias que visam o fortalecimento do audiovisual em nosso Estado.

Fazemos parte de um grupo denominado “artivismo em rede” que reúne 09 cineclubes com forte atuação na capital e no Estado. Estamos nos organizando em rede exatamente por entender que somente com a cultura colaborativista, poderemos tratar da questão do audiovisual como uma teia. E sabemos que o papel dos exibidores ainda precisa ser melhor entendido e respeitado como sendo de fundamental importância na cadeia produtiva dessa linguagem.

Reunidos na Casa Brasil (unidade Vila União), Fortaleza, no dia 28 de abril de 2009, dentro de um calendário de encontros promovidos pela Vila das Artes que objetiva uma ampliação do Pontos de Corte que visa ações em rede, foram deliberadas algumas propostas de inclusão de demanda cineclubista ao novo Edital de Cinema Vídeo da SECULT, abaixo citadas:

1. Inclusão da modalidade Cineclube no edital do audiviosual do Estado. Sendo destinado 10% do montante para este fim. Os termos e devidos encaminhamentos serão devidamente discutidos a posteriori, levando em conta os anseios e reivindicações do movimento cineclubista nacional.

A Motivação visa a concretização de uma ampla rede cineclubista, sustentável que em seu histórico atua como pólos de difusão da cultura cinematográfica, assim como de produção e exibição de suas próprias realizações, enfatizamos a proposta supracitada na tentativa de consolidarmos e ampliarmos circuitos de exibição alternativos, oficializando assim o papel de difusão cinematográfica no Estado. As reivindicações do movimento atual, pautadas no amadurecimento coletivo desses que se entendem enquanto organizações culturais autônomas, estão também em sintonia com a Campanha de Direitos do Público (vide “Carta de Tabor”), promovido pela Federação Internacional de Cineclubes (FICC), organização de defesa e desenvolvimento do cinema como meio cultural, presente em 75 países.

A luta pela garantia de dar à população acesso às obras cinematográficas, deve, assim, ser entendida como a mesma luta dos realizadores locais, que querem também garantir que seus filmes sejam vistos, tanto para os próprios cearenses, quanto para os que residem em outros Estados, ou outros países. A luta do movimento cineclubista, assim, é por uma cadeia /teia produtiva solidária, que no campo audiovisual permita aos cineclubes a oficialização de garantias mínimas de difusão das obras cinematográficas do Estado, gerando assim uma estrutura de economia solidária capaz de garantir a criação e a manuntenção dos cineclubes. A consciência das ações em rede é também uma garantia de processo contínuo de resgate da memória atual do nosso cinema, seja atual ou a pretérita, entendidas como patrimônio cearense.

Tendo o entendimento de que a inclusão do cineclube no edital é de fundamental importância para a consolidação de parte dos nossos anseios, mas não ainda o suficiente é que, em deliberação coletiva do movimento artivismo em rede cineclubista, tornamos pública as reivindicações que tornam sustentável o movimento cineclubista:

1. Implementação de políticas públicas de fomento e fortalecimento da atividade cineclubista no Estado do Ceará;

2. Criação de publicações referentes ao movimento cineclubista, como artigos, críticas e material impresso de divulgação coletiva das programações;

3. Estruturação de uma rede solidária entre os cineclubes cearenses e realizadores de audiovisual, que garanta o fortalecimento e a criação de novos cineclubes distribuídos em todo Estado, dentro uma política de economia solidária embutida em uma estrutura de formação, pesquisa, produção, exibição, distribuição e preservação da cultura audiovisual;

4. Criação de um Circuito de Filmes Cearenses, em toda a rede de cineclubes, estadual, inter-estadual e internacional, em parcerias diretas com entidades da classe audiovisual cearense, promovendo uma integração econômica entre cineclubistas e realizadores.

5. Entendimento de que os exibidores são fundamentais pra a divulgação das obras tornado-as conhecidas e que o investimento na difusão cineclubista é investimento na economia local e que estes estão inseridos no contexto do sistema produtivo.

6. Criação de Acervo de produções do audiovisual cearense no MIS – Museu de Imagem e Som, que deve sempre promover o intercâmbio desse material aos cineclubes integrados na rede solidária cineclubista a partir de regulamentação a ser acordada em momentos posteriori;

7. Apoio integral e solidário à Campanha Pelos Direitos do Público, promovidos pelo CNC – Conselho Nacional de Cineclubes, e a outras iniciativas de amplitude nacional, como o Fórum Nacional de Direito Autoral, entendidos como peças chaves para o desenvolvimento do cineclubismo no Estado.

8. Apoio logístico aos cineclubes cearenses, no que tange a participação desses nas Jornadas Nacionais de Cineclubes Brasileiros.

9. Que os editais possam enteder a complexidade cineclubista como um movimento que não necessariamente está vinculado com alguma entidade com corpo jurídico consolidado (inclusão da participação de pessoas físicas em editais cineclubistas)

10. Incluir no calendário cultural anual do Estado pelo menos uma atividade cineclubista.

A carta aberta do Artivismo em rede, movimento cineclubista que cria corpo no Ceará, está aberta para novas adesões e construção de novas propostas, e tão logo redigirmos uma demanda mais específica ao edital, encaminharemos as deliberações ao Fórum de Audiovisual Cearense, e à Secretaria de Cultura do Estado e a Secretaria de Cultura de Fortaleza.

Por fim, salientamos que o teor dessa carta deva ser entendido como uma contribuição à formação de um sistema produtivo justo e que todos os elementos sejam contemplados na cadeia produtiva do audiovisual. Estamos para somar, para afirmar que estamos dispostos à disseminação de conceitos como a cultura colaborativa e com a clara convicção de reunir ações e pensamentos em rede.

Cordialmente,

Representantes e apoiadores do Cineclubismo Cearense.

Assine também e participe do movimento:http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/4220

Tutorial Jogo de Luzes!

março 29, 2009

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Em anexo um tutorial produzido por uma equipe de jovens,
garotos e garotas da unidade Casa Brasil Meniná Meninó de Fortaleza. Trata-se de um
jogo de luzes metareciclado, produção passo a passo, elaborado por el@s
para ajudar na montagem de iluminação em palcos, auditórios e outros
espaços. Em copyleft, portanto usem e repassem!

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Lei Azeredo!

março 18, 2009

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Declaração da Assembleia de Mulheres – FSM 2009

fevereiro 10, 2009

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Pintura por Maurício Barbosa

Belém, 1 de fevereiro de 2009

No ano em que o FSM encontra-se com a população da Pan-Amazônia, nós mulheres de diferentes partes do mundo, reunidas em Belém, afirmamos a contribuição das mulheres indígenas e das mulheres de todos os povos da floresta como sujeito político que vem enriquecer o feminismo a partir da diversidade cultural de nossas sociedades e conosco fortalecer a luta feminista contra o sistema patriarcal capitalista globalizado.

O mundo hoje assiste a crises que expõem a inviabilidade deste sistema. As crises financeiras, alimentar, climática e energética não são fenômenos isolados, mas representam uma mesma crise do modelo, movido pela superexploração do trabalho e da natureza e pela especulação e financeirização da economia.

Frente a estas crises não nos interessam as respostas paliativas e baseadas ainda na lógica do mercado. Isto somente pode levar a uma sobrevida do mesmo sistema. Precisamos avançar na construção de alternativas. Para a crise climática e energética, negamos a solução por meio dos agrocombustíveis e do mercado de créditos de carbono. Nós, mulheres feministas, propomos a mudança no modelo de produção e consumo. Para a crise alimentar, afirmamos que os transgênicos não representam uma solução. Nossa proposta é a soberania alimentar e a produção agroecológica. Frente à crise financeira e econômica, somos contra os milhões retirados dos fundos públicos para salvar bancos e empresas. Nós mulheres feministas reivindicamos proteção ao trabalho e direito à renda digna.

Não podemos aceitar que as tentativas de manutenção desse sistema sejam feitas à custa de nós mulheres. As demissões em massa, o corte de gastos públicos nas áreas sociais e a reafirmação desse modelo produtivo afeta diretamente nossas vidas à medida que aumenta o trabalho de reprodução e de sustentabilidade da vida.

Para impor seu domínio no mundo, o sistema recorre à militarização e ao armamentismo; inventa confrontações genocidas que fazem das mulheres botim de guerra e sujeitam seus corpos à violência sexual como arma de guerra contra as mulheres no conflito armado. Expulsa populações e as obriga a viver como refugiadas políticas; deixa na impunidade a violência contra as mulheres, o feminicídio e outros crimes contra a humanidade, que se sucedem cotidianamente nos contextos de conflitos armados.

Nós feministas propomos transformações profundas e radicais das relações entre os seres humanos e com a natureza, o fim da lesbofobia, do patriarcado heteronormativo e racista. Exigimos o fim do controle sobre nossos corpos e sexualidade. Reivindicamos o direito a decidir com liberdade sobre nossas vidas e territórios que habitamos. Queremos que a reprodução da sociedade não se faça a partir da superexploração das mulheres.

No encontro das nossas forças, nós nos solidarizamos com as mulheres das regiões de conflitos armados e de guerra. Juntamos nossas vozes às das companheiras do Haiti e rechaçamos a violência praticada pelas forças militares de ocupação. Nossa solidariedade às colombianas, congolesas e tantas outras que resistem cotidianamente à violência de grupos militares e das milícias envolvidas nos conflitos em seus países. Nossa solidariedade com as iraquianas que enfrentam a violência da ocupação militar norte-americana. Nesse momento em especial nós nos solidarizamos com as mulheres palestinas que estão na Faixa de Gaza, sob ataque militar de Israel. E nos somamos a todas que lutam pelo fim da guerra no Oriente Médio.

Na paz e na guerra nos solidarizamos às mulheres vitimas de violência patriarcal e racista contra mulheres negras e jovens.

De igual maneira, manifestamos nosso apoio e solidariedade a cada uma das companheiras que estão em lutas de resistência contra as barragens, as madereiras, mineradoras e os megaprojetos na Amazônia e outras partes do mundo, e que estão sendo perseguidas por sua oposição legítima à exploração. Nós somamos às lutas pelo direito à água. Nós nos solidarizamos a todas as mulheres criminalizadas pela prática do aborto ou por defenderem este direito. Nós reforçamos nosso compromisso e convergimos nossas ações para resistir à ofensiva fundamentalista e conservadora, e garantir que todas as mulheres que precisem tenham direito ao aborto legal e seguro.

Nos somamos às lutas por acessibilidade para as mulheres com deficiência e pelo direito de ir e vir e permanecer das mulheres migrantes.

Por nós e por todas estas, seguiremos comprometidas com a construção do movimento feminista como uma força política contra-hegemônica e um instrumento das mulheres para alcançar a transformação de suas vidas e de nossas sociedades, apoiando e fortalecendo a auto-organização das mulheres , o diálogo e articulação das lutas dos movimentos sociais.

Estaremos todas, em todo o mundo, no próximo 8 de março e na Semana de Ação Global 2010, confrontando o sistema patriarcal e capitalista que nos oprime e explora. Nas ruas e em nossas casas, nas florestas e nos campos, no prosseguir de nossas lutas e no cotidiano de nossas vidas, manteremos nossa rebeldia e mobilização.

Etnografia!

dezembro 13, 2008

Essa Etnografia foi apresentada na disciplina Cultura Brasileira do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. Resolvi disponibilizá-la nesse espaço por ser um belíssimo trabalho e representar a sensibilidade de uma moça que, acima de tudo, é audaciosa. Danielle, foi um prazer dividir a sala com vc!

serra

MAIS UM DIA EM SERRA DAS MOÇAS…

E água que é boa, é pouca!

Por: Danielle Rodrigues da Silva

Entre maio de 2006 e maio de 2008, realizei uma pesquisa no Assentamento Rural Serra das Moças e dos Caboclos, Parambu – Ceará. Essa pesquisa era parte integrante da conclusão de meu curso de Mestrado no Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA – UFC. A Pesquisa intitulou-se “Buscando Água… As estratégias de convivência com a escassez de água no Assentamento Serra das Moças e dos Caboclos – Parambu – Ceará”. Nesse trabalho procurei desvendar como o camponês lida com a escassez hídrica da localidade e que estratégias utilizam para garantir suprimento para as necessidades pessoais e familiares.

Tomando como referência o conhecimento obtido pela participação efetiva nessa pesquisa, que teve a pesquisa participante como procedimento metodológico, procurarei nesse artigo caracterizar a trajetória de um dia na família do seu Geraldo, que me acolheu durante todo o trabalho e com os quais sempre estava presente.

O artigo etnográfico aqui apresentado procurará caracterizar as funções dos componentes da família camponesa. Como diz Godoy (1995) a pesquisa etnográfica possibilita, desta maneira, uma interpretação da cultura de um grupo a partir da investigação de como seu sistema de significados culturais está organizada e de como influencia o comportamento grupal. Um dia não define a cultura de um povo ou de uma sociedade, mas no campo brasileiro e mais especificamente, no semi-árido cearense, dá indicativos dos traços culturais dessa comunidade, revelando delicadamente os hábitos, as crenças, os valores, a linguagem e os significados.

2. Começando o dia…

São quatro horas da manhã no Assentamento Rural Serra das Moças e dos Caboclos, Parambu, Ceará. Seu Geraldo levanta para mais um novo dia de trabalho, aliás, muito trabalho. Com o sol ainda escondido e o cantar do galo levanta toda a família, uma vez que cada um já sabe a função que terá que desempenhar para garantir um dia produtivo, atividades próprias da vida camponesa.

Sem demora, chama os filhos deitados nas redes, enrolados em suas tangas1 multicoloridas e com seus camisões, porque na serra faz muito frio pela manhã. Enquanto Maria faz o café e arruma a criançada, seu Geraldo espreguiça-se na varanda e olha para o horizonte, para saber se o dia vai ser “bom”. Essa prática é comum entre os camponeses, pois desenvolveram ao longo do tempo a capacidade de ler e prever os fenômenos naturais. Afinal ele “[…] é o trabalhador que se envolve mais diretamente com os segredos da natureza.” (MOURA, 1986, p. 9). Sua aptidão foi adquirida mediante a relação cotidiana com a natureza, interpretação e leitura dos fenômenos ocorridos e transmissão destes, de geração para geração. Os camponeses dependem do mundo natural, de sua dinâmica, portanto, sua reprodução está diretamente ligada à convivência com esses elementos (SILVA, 2008, p.70).

Para os sertanejos a observação das estrelas, de certas árvores como o pau d’arco e imbiratama podem também fornecer elementos de previsão para a tão esperada chuva (GOMES, A, 1998), que ao chegar, inicia não somente o ciclo da vida natural, mas também social e cultural. (GOMES, 1998 apud DIEGUES, 2005, p.8).

Essa mesma observação das condições ambientais e, mais atentamente, dos ciclos naturais é que lhes permite desenvolver a habilidade de prever os períodos de chuva ou de estiagem na sua comunidade, antecipando uma informação que os leva a adequar-se às condições que estão por vir.

Da calçada seu Geraldo avista os visinhos que também se preparam para mais um dia na roça. Entre cumprimentos e conversas, tomam café e falam da plantação, pois a época é de limpar a terra e muitas vezes, fazem isso coletivamente.

Terminada as tarefas matinais todos caminham para suas obrigações. A família divide-se para ajudar nas atividades, sendo que uma parte fica em casa com os menores e outra segue com o homem (chefe da família) para a roça.

O filho de 8 anos vai tanger o gado até o açude para dessedentação e para se refrescarem. Faz isso sob o lombo de um jumento que criam, onde colocam cargas para trazer água para as atividades diárias. Trata-se de umas quatro cabeças de gado, magra, mas que garante leite para a filha menor e para as coalhadas de domingo. A área descrita não dispõe de serviços de distribuição de água e os açudes mais próximos dessa área serrana estão a cerca de 5 km.

Marido e esposa saem a pé pela estrada, entre veredas ressequidas, pois é setembro e a vegetação típica da caatinga perde a maior parte das folhas nesse período, e caminham até suas frentes (roças).

A filha do meio, com pouco mais de 10 anos fica em casa, esperando o irmão chegar com a água para lavar os pratos, arrumar a casa, levar o irmão mais novo para a escola, colocar comida para as galinhas, aguar a horta que fizeram como complemento alimentar e fazer o almoço, que as 10h em ponto já está cheirando quintal afora. Essas atividades são realizadas com muita acuidade, pois com séria escassez hídrica na localidade é preciso economizar.

Assim lava os pratos com o mínimo possível. Com a água restante dessa atividade coloca nas plantas, pois estão enriquecidas organicamente. Bota água para as galinhas. Banho no irmão só de tardezinha quando ele não terá mais oportunidade de se sujar.

Na roça, seu Geraldo limpa sua tarefa. Encontra duas cobras pela manhã, mas já nem se importa com a visita inusitada. Isso já faz parte do cotidiano de quem mora na serra. Aliás, é esse cotidiano que o camponês adora e conhece perfeitamente.

O sertanejo é um apaixonado por sua terra, mantém um intenso vínculo familiar e possui uma forte tendência à solidariedade. Gosta de acordar com as galinhas e os pássaros, aos primeiros raios do alvorecer de um dia sempre novo. Sua religiosidade quase natural lhe permite renovar a fé e a esperança em um tempo de fartura (FIGUEIREDO, 2003, p. 110).

No roçado ao lado, a mulher limpa rapidamente sua tarefa, que é bem menor, pois ela se divide entre as tarefas do lar e a lida no roçado. Ao terminar, por volta das 9 horas da manhã, se dirige ao açude onde o filho se encontra para “bater roupa” 2. O filho levou a trouxa mais cedo em cima do lombo do animal.

Nas comunidades, os açudes são locais de referência de vida social. Em geral, são utilizados para a dessedentação animal, banho e lavagem de roupa, expressão que na linguagem popular é igual a “bater roupa”. É na lavagem de roupa que as mulheres costumam se reunir e estabelecem os contatos de maior proximidade com as vizinhas, seja nas cantorias ou nas conversas (SILVA, 2008).

Depois de pouco mais de uma hora de conversa e trabalho, Maria volta com o filho e o jumento carregado de água para casa. A filha do meio só faz a parte simples, tais como, o arroz, esquentar o feijão e matar e cortar uma das galinhas do “terreiro”. Além do mais, a menina já é “moça3” e não pode ficar sozinha por muito tempo para não ficar mal falada e não casar.

Em casa, aprontam o almoço e esperam seu Geraldo chegar, pois a mesa só é posta com a presença do pai, que é o primeiro a se servir. A exceção era a minha presença, pois como visitante, tinha prioridade à mesa e podia comer na mesma hora que o dono da casa. É, certamente, uma sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo, onde as relações estabelecidas entre os sujeitos, em grande medida, priorizam a figura masculina.

3. É de tarde e o trabalho continua…

Por volta de uma da tarde, as crianças vão para a escola. A mais nova fica com a cunhada de seu Geraldo. Só tem uma sala e é multiseriada. Seu Geraldo volta para a roça e hoje, Maria não irá acompanhá-lo como de práxi para me fazer companhia em minhas observações (registros fotográficos, entrevistas, questionários).

A tardinha, todos retornam e eu já voltei de minhas andanças. Agora sim, é hora do “banho de algodão4”. Apenas seu Geraldo toma banho com uma quartinha d’água, pois passou o dia na roça e precisa esfriar a cabeça. O filho, por sorte, foi até o açude e lá se banhou. Assim vai revezando essa obrigação com a irmã. Decerto que a água era barrenta, mas aliviava a sensação de calor.

Mas, “os quefazeres não param por aí”. É hora de sentar na varanda e debulhar o feijão, pois amanhã é dia de feira na cidade. No período do milho, a família também se reúne para a debulha, mas não era época.

Mas como diz Lima (2008),

É comum encontrarmos um cômodo construído em cada casa com essa para guardar o milho e o feijão. Nele, os camponeses guardam as sementes em garrafas de plástico, as ferramentas e o que é colhido, além de servir como local de socialização, visto que as mulheres e as crianças debulham o milho e tiram o feijão das vagens, sentados ao chão conversando”.

4. A noite cai… Hora da descontração

Após o jantar, que foi a sobra do almoço, mas já sem a “mistura”, nos reunimos na varanda. Entre um trabalho e outro começamos a conversar. Histórias de “trancoso” e assombração são interrompidas apenas pelo barulho dos grilos em meio a escuridão da mata. Jogamos baralho e até apostamos palitinhos quebrados.

Mesmo nessa “euforia”, assuntos sérios relacionados à produção, a roça e ao inverno permeiam nossos diálogos. Seu Geraldo está preocupado com o início de ano. É que ele colocou as pedras de sal na tábua, mas só uma molhou.

Para amanhecer o dia de Santa Luzia (12 de dezembro) colocam-se sobre uma tábua de madeira seis pedras de sal ao sereno, referentes aos meses de janeiro a junho. No amanhecer do dia 13 de dezembro, as pedras que estiverem molhadas são referentes aos meses de chuva” (LIMA, 2008, p.167).

Outros hábitos também marcam as crenças camponesas no que tange aos aspectos climáticos. O dia de São José, 19 de março, para os sertanejos, por exemplo, é o limite para que ocorram as chuvas. Se elas não vierem até essa data, indica que o ano não terá uma precipitação adequada ao plantio.

São José é considerado protetor em virtude do dia 19 de março ser próximo ao equinócio, o que serve para indicar se a Convergência Intertropical (CIT) virá ou não em direção ao Sul do Equador. É um momento de muita reza e expectativa. (SAMPAIO, 1999, p. 63).

Entre uma história e outra, Antônia Valda começa a relatar sua vivência ao chegar na serra na década de 80. Recorda bem o trajeto realizado para buscar água nos açudes. Esse percurso era diário. Trazia em média duas “carguinhas d’água” para realizar todas as atividades.

Eu comecei a criar meus filhos aqui em cima da serra, ai era meu marido tangendo umas cabrinhas, ia buscar água lá naquela Buretama aculá. Você subiu pela aquela ladeira ali, num foi? […] Foi […], pois é, aquela ladeira ali num era rodagem não, num subia carro não, só subia jumentinho com carga […] a água era pra tudo. Hoje tá muito suja aí a gente compra do carro pipa para beber. Ele ia todo santo dia, quando num era de manhãzinha ele ia de noite. Até eu ia buscar água com o buchão por acolá, mas ia. Aqui sempre foi assim, esse problema por causa da água (Antônia Valda, 45 anos, dezembro de 2007).

Após longas e detalhadas histórias dos vizinhos, as crianças começam a aninhar-se para dormir, pois já são 9 horas. Hoje abriram um precedente para dormir tão tarde, por causa da minha presença, mas costumeiramente, fecham a porta por volta de 20 horas. As crianças vão para as redes, seu Geraldo para seu leito com sua esposa e eu fico na varanda, numa rede da família com o filho mais velho do casal em uma rede encostada a minha. Não há assaltos ou furtos em Serra das Moças, então muitas vezes dormimos na varanda até umas duas da manhã, mas quando o frio aperta, entramos para a sala.

Agora é tarde e todos vão dormir, pois amanhã o dia começa cedo e está cheio de afazeres, principalmente, porque é dia de feira.

Boa noite!

1 Tipo de lençol ou coberta, feito de pedaços de tecidos, retalhos quadrados.

2 Termo utilizado para indicar que a mulher vai lavar a roupa.

3 Refere-se ao fato da menina já ter tido sua primeira menstruação.

4 Devido a pouca quantidade de água disponível, molha-se o algodão (ou outro material) e passa-se na pele para retirar o excesso de poeira e oleosidade.

Como fazer Sabão com Óleo de cozinha!

dezembro 12, 2008