Arquivo para dezembro 2008

Etnografia!

dezembro 13, 2008

Essa Etnografia foi apresentada na disciplina Cultura Brasileira do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. Resolvi disponibilizá-la nesse espaço por ser um belíssimo trabalho e representar a sensibilidade de uma moça que, acima de tudo, é audaciosa. Danielle, foi um prazer dividir a sala com vc!

serra

MAIS UM DIA EM SERRA DAS MOÇAS…

E água que é boa, é pouca!

Por: Danielle Rodrigues da Silva

Entre maio de 2006 e maio de 2008, realizei uma pesquisa no Assentamento Rural Serra das Moças e dos Caboclos, Parambu – Ceará. Essa pesquisa era parte integrante da conclusão de meu curso de Mestrado no Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA – UFC. A Pesquisa intitulou-se “Buscando Água… As estratégias de convivência com a escassez de água no Assentamento Serra das Moças e dos Caboclos – Parambu – Ceará”. Nesse trabalho procurei desvendar como o camponês lida com a escassez hídrica da localidade e que estratégias utilizam para garantir suprimento para as necessidades pessoais e familiares.

Tomando como referência o conhecimento obtido pela participação efetiva nessa pesquisa, que teve a pesquisa participante como procedimento metodológico, procurarei nesse artigo caracterizar a trajetória de um dia na família do seu Geraldo, que me acolheu durante todo o trabalho e com os quais sempre estava presente.

O artigo etnográfico aqui apresentado procurará caracterizar as funções dos componentes da família camponesa. Como diz Godoy (1995) a pesquisa etnográfica possibilita, desta maneira, uma interpretação da cultura de um grupo a partir da investigação de como seu sistema de significados culturais está organizada e de como influencia o comportamento grupal. Um dia não define a cultura de um povo ou de uma sociedade, mas no campo brasileiro e mais especificamente, no semi-árido cearense, dá indicativos dos traços culturais dessa comunidade, revelando delicadamente os hábitos, as crenças, os valores, a linguagem e os significados.

2. Começando o dia…

São quatro horas da manhã no Assentamento Rural Serra das Moças e dos Caboclos, Parambu, Ceará. Seu Geraldo levanta para mais um novo dia de trabalho, aliás, muito trabalho. Com o sol ainda escondido e o cantar do galo levanta toda a família, uma vez que cada um já sabe a função que terá que desempenhar para garantir um dia produtivo, atividades próprias da vida camponesa.

Sem demora, chama os filhos deitados nas redes, enrolados em suas tangas1 multicoloridas e com seus camisões, porque na serra faz muito frio pela manhã. Enquanto Maria faz o café e arruma a criançada, seu Geraldo espreguiça-se na varanda e olha para o horizonte, para saber se o dia vai ser “bom”. Essa prática é comum entre os camponeses, pois desenvolveram ao longo do tempo a capacidade de ler e prever os fenômenos naturais. Afinal ele “[…] é o trabalhador que se envolve mais diretamente com os segredos da natureza.” (MOURA, 1986, p. 9). Sua aptidão foi adquirida mediante a relação cotidiana com a natureza, interpretação e leitura dos fenômenos ocorridos e transmissão destes, de geração para geração. Os camponeses dependem do mundo natural, de sua dinâmica, portanto, sua reprodução está diretamente ligada à convivência com esses elementos (SILVA, 2008, p.70).

Para os sertanejos a observação das estrelas, de certas árvores como o pau d’arco e imbiratama podem também fornecer elementos de previsão para a tão esperada chuva (GOMES, A, 1998), que ao chegar, inicia não somente o ciclo da vida natural, mas também social e cultural. (GOMES, 1998 apud DIEGUES, 2005, p.8).

Essa mesma observação das condições ambientais e, mais atentamente, dos ciclos naturais é que lhes permite desenvolver a habilidade de prever os períodos de chuva ou de estiagem na sua comunidade, antecipando uma informação que os leva a adequar-se às condições que estão por vir.

Da calçada seu Geraldo avista os visinhos que também se preparam para mais um dia na roça. Entre cumprimentos e conversas, tomam café e falam da plantação, pois a época é de limpar a terra e muitas vezes, fazem isso coletivamente.

Terminada as tarefas matinais todos caminham para suas obrigações. A família divide-se para ajudar nas atividades, sendo que uma parte fica em casa com os menores e outra segue com o homem (chefe da família) para a roça.

O filho de 8 anos vai tanger o gado até o açude para dessedentação e para se refrescarem. Faz isso sob o lombo de um jumento que criam, onde colocam cargas para trazer água para as atividades diárias. Trata-se de umas quatro cabeças de gado, magra, mas que garante leite para a filha menor e para as coalhadas de domingo. A área descrita não dispõe de serviços de distribuição de água e os açudes mais próximos dessa área serrana estão a cerca de 5 km.

Marido e esposa saem a pé pela estrada, entre veredas ressequidas, pois é setembro e a vegetação típica da caatinga perde a maior parte das folhas nesse período, e caminham até suas frentes (roças).

A filha do meio, com pouco mais de 10 anos fica em casa, esperando o irmão chegar com a água para lavar os pratos, arrumar a casa, levar o irmão mais novo para a escola, colocar comida para as galinhas, aguar a horta que fizeram como complemento alimentar e fazer o almoço, que as 10h em ponto já está cheirando quintal afora. Essas atividades são realizadas com muita acuidade, pois com séria escassez hídrica na localidade é preciso economizar.

Assim lava os pratos com o mínimo possível. Com a água restante dessa atividade coloca nas plantas, pois estão enriquecidas organicamente. Bota água para as galinhas. Banho no irmão só de tardezinha quando ele não terá mais oportunidade de se sujar.

Na roça, seu Geraldo limpa sua tarefa. Encontra duas cobras pela manhã, mas já nem se importa com a visita inusitada. Isso já faz parte do cotidiano de quem mora na serra. Aliás, é esse cotidiano que o camponês adora e conhece perfeitamente.

O sertanejo é um apaixonado por sua terra, mantém um intenso vínculo familiar e possui uma forte tendência à solidariedade. Gosta de acordar com as galinhas e os pássaros, aos primeiros raios do alvorecer de um dia sempre novo. Sua religiosidade quase natural lhe permite renovar a fé e a esperança em um tempo de fartura (FIGUEIREDO, 2003, p. 110).

No roçado ao lado, a mulher limpa rapidamente sua tarefa, que é bem menor, pois ela se divide entre as tarefas do lar e a lida no roçado. Ao terminar, por volta das 9 horas da manhã, se dirige ao açude onde o filho se encontra para “bater roupa” 2. O filho levou a trouxa mais cedo em cima do lombo do animal.

Nas comunidades, os açudes são locais de referência de vida social. Em geral, são utilizados para a dessedentação animal, banho e lavagem de roupa, expressão que na linguagem popular é igual a “bater roupa”. É na lavagem de roupa que as mulheres costumam se reunir e estabelecem os contatos de maior proximidade com as vizinhas, seja nas cantorias ou nas conversas (SILVA, 2008).

Depois de pouco mais de uma hora de conversa e trabalho, Maria volta com o filho e o jumento carregado de água para casa. A filha do meio só faz a parte simples, tais como, o arroz, esquentar o feijão e matar e cortar uma das galinhas do “terreiro”. Além do mais, a menina já é “moça3” e não pode ficar sozinha por muito tempo para não ficar mal falada e não casar.

Em casa, aprontam o almoço e esperam seu Geraldo chegar, pois a mesa só é posta com a presença do pai, que é o primeiro a se servir. A exceção era a minha presença, pois como visitante, tinha prioridade à mesa e podia comer na mesma hora que o dono da casa. É, certamente, uma sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo, onde as relações estabelecidas entre os sujeitos, em grande medida, priorizam a figura masculina.

3. É de tarde e o trabalho continua…

Por volta de uma da tarde, as crianças vão para a escola. A mais nova fica com a cunhada de seu Geraldo. Só tem uma sala e é multiseriada. Seu Geraldo volta para a roça e hoje, Maria não irá acompanhá-lo como de práxi para me fazer companhia em minhas observações (registros fotográficos, entrevistas, questionários).

A tardinha, todos retornam e eu já voltei de minhas andanças. Agora sim, é hora do “banho de algodão4”. Apenas seu Geraldo toma banho com uma quartinha d’água, pois passou o dia na roça e precisa esfriar a cabeça. O filho, por sorte, foi até o açude e lá se banhou. Assim vai revezando essa obrigação com a irmã. Decerto que a água era barrenta, mas aliviava a sensação de calor.

Mas, “os quefazeres não param por aí”. É hora de sentar na varanda e debulhar o feijão, pois amanhã é dia de feira na cidade. No período do milho, a família também se reúne para a debulha, mas não era época.

Mas como diz Lima (2008),

É comum encontrarmos um cômodo construído em cada casa com essa para guardar o milho e o feijão. Nele, os camponeses guardam as sementes em garrafas de plástico, as ferramentas e o que é colhido, além de servir como local de socialização, visto que as mulheres e as crianças debulham o milho e tiram o feijão das vagens, sentados ao chão conversando”.

4. A noite cai… Hora da descontração

Após o jantar, que foi a sobra do almoço, mas já sem a “mistura”, nos reunimos na varanda. Entre um trabalho e outro começamos a conversar. Histórias de “trancoso” e assombração são interrompidas apenas pelo barulho dos grilos em meio a escuridão da mata. Jogamos baralho e até apostamos palitinhos quebrados.

Mesmo nessa “euforia”, assuntos sérios relacionados à produção, a roça e ao inverno permeiam nossos diálogos. Seu Geraldo está preocupado com o início de ano. É que ele colocou as pedras de sal na tábua, mas só uma molhou.

Para amanhecer o dia de Santa Luzia (12 de dezembro) colocam-se sobre uma tábua de madeira seis pedras de sal ao sereno, referentes aos meses de janeiro a junho. No amanhecer do dia 13 de dezembro, as pedras que estiverem molhadas são referentes aos meses de chuva” (LIMA, 2008, p.167).

Outros hábitos também marcam as crenças camponesas no que tange aos aspectos climáticos. O dia de São José, 19 de março, para os sertanejos, por exemplo, é o limite para que ocorram as chuvas. Se elas não vierem até essa data, indica que o ano não terá uma precipitação adequada ao plantio.

São José é considerado protetor em virtude do dia 19 de março ser próximo ao equinócio, o que serve para indicar se a Convergência Intertropical (CIT) virá ou não em direção ao Sul do Equador. É um momento de muita reza e expectativa. (SAMPAIO, 1999, p. 63).

Entre uma história e outra, Antônia Valda começa a relatar sua vivência ao chegar na serra na década de 80. Recorda bem o trajeto realizado para buscar água nos açudes. Esse percurso era diário. Trazia em média duas “carguinhas d’água” para realizar todas as atividades.

Eu comecei a criar meus filhos aqui em cima da serra, ai era meu marido tangendo umas cabrinhas, ia buscar água lá naquela Buretama aculá. Você subiu pela aquela ladeira ali, num foi? […] Foi […], pois é, aquela ladeira ali num era rodagem não, num subia carro não, só subia jumentinho com carga […] a água era pra tudo. Hoje tá muito suja aí a gente compra do carro pipa para beber. Ele ia todo santo dia, quando num era de manhãzinha ele ia de noite. Até eu ia buscar água com o buchão por acolá, mas ia. Aqui sempre foi assim, esse problema por causa da água (Antônia Valda, 45 anos, dezembro de 2007).

Após longas e detalhadas histórias dos vizinhos, as crianças começam a aninhar-se para dormir, pois já são 9 horas. Hoje abriram um precedente para dormir tão tarde, por causa da minha presença, mas costumeiramente, fecham a porta por volta de 20 horas. As crianças vão para as redes, seu Geraldo para seu leito com sua esposa e eu fico na varanda, numa rede da família com o filho mais velho do casal em uma rede encostada a minha. Não há assaltos ou furtos em Serra das Moças, então muitas vezes dormimos na varanda até umas duas da manhã, mas quando o frio aperta, entramos para a sala.

Agora é tarde e todos vão dormir, pois amanhã o dia começa cedo e está cheio de afazeres, principalmente, porque é dia de feira.

Boa noite!

1 Tipo de lençol ou coberta, feito de pedaços de tecidos, retalhos quadrados.

2 Termo utilizado para indicar que a mulher vai lavar a roupa.

3 Refere-se ao fato da menina já ter tido sua primeira menstruação.

4 Devido a pouca quantidade de água disponível, molha-se o algodão (ou outro material) e passa-se na pele para retirar o excesso de poeira e oleosidade.

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dezembro 12, 2008

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dezembro 12, 2008

Alemania dona 100.000 fotografías históricas a Wikipedia

dezembro 11, 2008

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l Archivo Nacional de Alemania ha anunciado la donación a Wikipedia de 100.000 fotografías digitalizadas que corresponden a distintos momentos históricos. Las imágenes cubren un periodo que oscila entre 1860 a la actualidad, y forman parte de un proyecto que pretende poner a disposición de los ciudadanos 11 millones de fotografías para su uso público.

“Hemos decidido cooperar debido al éxito de Wikipedia. De esta manera, podemos llegar a un mayor público”, asegura el director adjunto del archivo B. Kuhl al diario alemán The Local. La iniciativa se ha desarrollado puesto que “la gente normalmente no piensa en nosotros cuando busca imágenes”, explica Kuhl.

Las imágenes donadas por el Gobierno alemán incluyen documentación sobre el Holocausto, manifestaciones y otros acontecimientos de la historia contemporánea del país teutón.

“Todo el mundo está involucrado de alguna manera, se trata de un trabajo en constante proceso”, asegura Kulh quien desvela que en la actualidad el proyecto cuenta con un total de 11 millones de fotografías, que serán distribuidas bajo la licencia Creative Commons para su difusión y uso público.

http://www.elpais.com/articulo/internet/Alemania/dona/100000/fotografias/historicas/Wikipedia/elpeputec/20081208elpepunet_2/Tes

Não existe!!!!

dezembro 6, 2008

Deputado Pinotti assumirá futura Secretaria Especial da Mulher

Na pasta a ser criada, será desenvolvido um projeto de AMAs para mulheres

CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL

A convite do prefeito Gilberto Kassab, o deputado federal José Pinotti (DEM) assumirá a Secretaria Especial da Mulher. A secretaria -que será criada pelo prefeito- reunirá todos os programas municipais destinados às mulheres, começando pela área de saúde. Médico, Pinotti desenvolverá, por exemplo, um projeto-piloto para criação de AMAs (Atendimento Médico Ambulatorial) dedicadas exclusivamente à atenção integral da saúde da mulher. Outro programa na saúde é de atendimento às portadoras de deficiência. A secretaria também desenvolverá um piloto com atividades de esporte e saúde voltadas para as mulheres da terceira idade nos clubes-escolas.
Segundo Pinotti, a secretaria tem ainda natureza conceitual, envolvendo temas como violência sexual e domiciliar, além do aumento da incidência de Aids entre mulheres de baixa renda. “Mas, além desse aspecto dialético, o prefeito pediu que a secretaria tivesse um lado pragmático. Então, faremos os pilotos e apresentaremos aos secretários. Se eles quiserem, adotam ou não”, afirmou.
Kassab convidou Pinotti na noite de domingo, durante uma visita à casa do deputado. Ele deverá assumir o cargo antes do fim do ano. Pinotti foi secretário municipal de Educação do governo Serra/Kassab, função que deixou, a pedido dos democratas, para concorrer à Câmara dos Deputados em 2006. Então candidato a governador, José Serra pediu que disputasse para fortalecer a bancada do DEM. Já eleito deputado, Pinotti ocupou a Secretaria Estadual de Ensino Superior, mas entregou o cargo após a crise provocada pela invasão da reitoria da USP.
Segundo aliados do prefeito, não será necessária a aprovação da Câmara Municipal para criação dessa nova secretaria.
Amanhã, o prefeito conversará com o presidente nacional do PV, José Luiz França Penna. Recém-eleito vereador, Penna é cotado para a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. O também eleito Marcos Cintra (PR) assume hoje a Secretaria Municipal de Trabalho e Desenvolvimento. Kassab confirmou ainda a criação de duas secretarias: a de Fiscalização e a de Planejamento Urbano.

http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ cotidian/ ff0212200806. htm

Clareiras!

dezembro 4, 2008

livros

Se um autor faz você voltar atrás na leitura, seja de um período ou de uma simples frase, não o julgue profundo demais, não fique complexado: o inferior é ele.

A atual crise de expressão, que tanto vem alarmando a velha-guarda que morre mas não se entrega, não deve ser propriamente de expressão, mas de pensamento. Como é que pode escrever certo quem não sabe ao certo o que procura dizer?

Em meio à intrincada selva selvaggia de nossa literatura encontram-se às vezes, no entanto, repousantes clareiras. E clareira pertence à mesma família etimológica de clareza… Que o leitor me desculpe umas considerações tão óbvias. É que eu desejava agradecer, o quanto antes, o alerta repouso que me proporcionaram três livros que li na última semana: Rio 1900 de Brito Broca, Fronteira, de Moysés Vellinho e Alguns Estudos, de Carlos Dante de Moraes.

Porque, ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.

E, como também estive a folhear o velho Pascall, na edição Globo, encontrei providencialmente em meu apoio estas palavras, à pág. 23 dos Pensamentos:

“Quando deparamos com o estilo natural, ficamos pasmados e encantados, como se esperássemos ver um autor e encontrássemos um homem”.

Mario Quintana – A vaca e o hipogrifo